Fernanda Martins

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Esperto pra cachorro

Com freqüência, as pessoas me perguntam a respeito da inteligência dos seus cães e sobre sua capacidade de aprendizagem.  É comum ouvir dos proprietários: “ele entende tudo o que digo”, ou “ele só falta falar”…  E, de fato, são muitas as demonstrações de esperteza que os cães nos dão.

Na Polícia Militar de São Paulo, por exemplo, os cães são treinados para encontrar drogas, explosivos e pessoas desaparecidas e, para isso, atendem a comandos que são dados em três idiomas: inglês, alemão e português.  Inúmeros casos já foram relatados sobre cães que previram acidentes e catástrofes naturais. Mais ainda: quantos episódios diários nós presenciamos onde a capacidade de ‘raciocínio’ dos cães nos surpreende? Eles conhecem cada reação do dono, se escondem quando fazem besteiras antes mesmo de serem descobertos e sabem identificar prontamente pessoas que precisam de ajuda. Não é por acaso que os cães são escolhidos para ajudar em diversos trabalhos de terapia.

Mas, até onde os cães realmente nos entendem?  Ou melhor, até que ponto esses nossos amigos são capazes de aprender e realizar tarefas?

Nos últimos anos, muitos estudos foram feitos para esclarecer esse mistério. Um dos mais famosos é o do psicólogo e pesquisador Stanley Coren, autor do livro “A Inteligência dos Cães”. Neste estudo é mensurada a ‘Inteligência de Obediência e Trabalho’ e não a inteligência ‘instintiva’ dos cães. Ou seja, ele avalia a capacidade que cada raça tem de entender e efetuar comandos para realizar determinada tarefa e estabelece uma classificação dessas raças por grupos, desde as que têm o melhor e mais rápido desempenho até as que possuem maior dificuldade em obedecê-los.

De acordo com o estudo, a raça considerada ‘mais inteligente’ é o Border Collie e a raça que apresenta ‘maior dificuldade em obedecer’ é o Afghan Hound. Expressei a classificação do estudo entre ‘aspas’ porque penso que cada animal, não só o cão, possui um tipo peculiar de inteligência e dizer que um é mais que o outro não me agrada. De modo geral, todos os animais possuem mecanismos de aprendizado e, além disso, esse estudo trata apenas da capacidade de obediência e trabalho e, como sabemos, essas não são as únicas características de inteligência dos cães.

Um detalhe relevante é que as raças possuem aptidões diferentes para trabalhos – e isso deve ser levado em consideração na hora da escolha da raça para determinada função – e, mesmo dentro de uma mesma raça, há diferenças significativas entre os cães. Um cão nunca é igual a outro, mesmo que sejam da mesma ninhada. Cada um tem suas próprias características, além de haver também diferença entre os sexos. Um exemplo prático disso é que, para o trabalho de resgate do Corpo de Bombeiros, onde geralmente são escolhidos Labradores, há uma preferência por fêmeas porque elas são mais dóceis e não apresentam a dominância dos machos.

Segundo Stanley Coren, ainda, os cães são capazes de aprender cerca de 160 palavras, podendo, assim, ser comparados a bebês humanos. Outros estudos demonstram que alguns cachorros têm a capacidade de contar até cinco e que tentam enganar os humanos para conseguir o que desejam. Uma equipe coordenada pelo pesquisador Brian Hare, da Universidade de Harvard, relata que os cães são os animais que melhor compreendem os sinais humanos. Nem mesmo os chimpanzés – os animais mais próximos do ser humano na evolução – tiveram o mesmo desempenho.

Cada animal tem o potencial de aprendizado e adaptação necessário para sua sobrevivência, o que é demonstrado de acordo com os desafios que são enfrentados ao longo da vida. Durante o processo de domesticação os cães foram selecionados por um conjunto de habilidades que os capacitaram a se comunicarem conosco. Eles entendem muito bem nossa linguagem e usam, satisfatoriamente, a sua própria para se expressar.  À sua maneira, os cães conseguiram meios de se fazerem entender e de, melhor que qualquer outra espécie, demonstrar o que os humanos mais precisam e que muitas vezes não possuem: um amor que não depende de nada, mas somente da existência do outro.

Quem sabe esta não é a forma mais inteligente de se expressar?

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Fernanda Martins é médica veterinária formada pela UFRRJ (CRMV-RJ 7783) e especializada em pequenos animais.

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