Fernanda Martins

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Prato principal: cachorro

Eu, como o país inteiro, fiquei perplexa com a descoberta do abatedouro clandestino de cães em São Paulo na semana passada. O casal dono do local foi detido pela polícia por possuir um abatedouro nos fundos de uma borracharia, onde os cães recolhidos da rua eram mantidos em regime de engorda, depois mortos a machadadas e a carne vendida para restaurantes orientais. Em média eram vendidos 10 animais por semana e, como o abatedouro funcionava há cerca de 3 anos, mais de 1400 cachorros foram mortos pelo casal.

Nas culturas orientais, o consumo de carne de cachorro é comum, mas para nós ocidentais é um hábito que causa, no mínimo, estranhamento. No Brasil, por lei, não é permitido matar e comer animais domésticos, como cachorro e gato. E ainda, segundo a lei estadual 11.977, os “animais domésticos, aqueles de convívio do ser humano, dele dependentes, e que não repelem o jugo humano” não podem ser criados para o consumo. A lei também proíbe “a prática de sacrifício de cães e gatos em todos os Municípios do Estado, por métodos cruéis (…) e qualquer outro procedimento que provoque dor, estresse ou sofrimento”. Assim, o casal será acusado por crimes contra o meio ambiente, maus-tratos a animais, crimes contra o consumo e formação de quadrilha.

O consumo dessas carnes traz risco à saúde, uma vez que os animais eram capturados nas ruas e poderiam estar contaminadas por doenças transmissíveis ao homem (zoonoses). As carnes apreendidas no abatedouro e nos restaurantes serão analisadas pela Vigilância Sanitária, que também fará exames de DNA para confirmar a que espécies essas carnes pertencem. Qualquer alimento de origem animal deve sofrer fiscalização sanitária, e, de acordo com o decreto n° 30.691 de 29 de março de 1952 (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), a fiscalização deve ser realizada não só antes ou após o abate, mas também em todo o percurso que a carne percorre até o seu destino. Portanto toda carne sem fiscalização, sendo de cachorro ou de outro animal, pode trazer risco à saúde humana.

Deixando de lado as questões sanitárias, um fato nesse caso foi positivo. Finalmente as autoridades brasileiras agiram contra os maus-tratos a cães. Enquanto em outros países existe uma polícia que trabalha somente investigando crimes contra animais, os chamados “animal cops”, aqui no Brasil infelizmente isto está longe de acontecer. Apesar de serem ações tomadas por se tratar de uma carne que pode afetar a saúde pública, de fato houve uma mobilização por parte das autoridades. Quem sabe isto não se torne uma realidade aqui no Brasil e os crimes contra animais, de qualquer espécie, sejam sempre punidos?

Antes de me despedir, gostaria de deixar uma questão a ser refletida. Por que o consumo da carne de cachorro causa espanto e o de outras espécies não? Outros animais, como suínos, bovinos e aves, são abatidos diariamente e fazem parte da alimentação humana sem causar nenhuma repulsa. Por que o abate desses animais, que nem sempre é feito de maneira “correta”, não causa, na maioria das pessoas, o mesmo sentimento que gerou o abate daqueles cães? Será que um dia esses “animais de produção” serão criados, mantidos e abatidos de uma forma que seja realmente humanitária? Eu, particularmente, torço para que esse dia chegue em breve, não só no Brasil, mas em todos os países do mundo.

Boa semana!

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Fernanda Martins é médica veterinária formada pela UFRRJ (CRMV-RJ 7783) e especializada em pequenos animais.

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Comentários





Comentários

4 comentários para “Prato principal: cachorro”

  1. Beto Leal

    Acredito Fernanda, que o estranhamento seja causado pelo sentimento que a maior parte dos brasileiros sente por seus cães.

    Independente de qualquer opinião técnica sobre o assunto, eu desconheço outro animal que tenha uma relação tão intensa e profunda com o homem como o cão.

    Gostaria muito que mesmo os animais mantidos para consumo humano, em pleno séc. XXI, fossem mantidos e abatidos por meios mais “humanos”, sem nenhum tipo de crueldade envolvida nesse processo.

    Sou solidário a sua idéia de fiscalização, mas entendo que mudanças ocorrem quando existe pressão da opinião pública ou vontade política muito forte.

    Meus parabéns pelo artigo tão pertinente, esclarecedor e oportuno.

    Beto Leal
    Designer e amante dos animais, rs

  2. Fernanda Martins

    Obrigada, Beto.

    Concordo que o cão seja a espécie mais próxima do homem, e que incontáveis vezes ele seja como um filho, um irmão, um melhor amigo. Justamente por isso eu, assim como inúmeras pessoas, ficamos chocados com essa notícia.
    Mas creio que crueldade é sempre crueldade, independentemente da espécie. Acho que todos os animais, domésticos ou silvestres, merecem respeito e dignidade mesmo na hora do abate. Para mim, é o mínimo. Continuo com a esperança que um dia isso acontecerá.

    Abraços

  3. JOSÉ CARLOS PINHA

    Parabéns Dra. Fernanda, de fato um excelente ponto de vista, recheado de lucidez e realidade. Concordo com tudo que disse.
    No entanto, quero complementar o assunto com observações, através de um ponto de vista também pertinente ao assunto: O consumo de outros animais domésticos, como por exemplo, os cavalos e vacas leiteiras, animais tão dóceis e inofensivos como um “cãozinho de madame”.
    Sou Empresário, Eletricista e técnico em Telecomunicações. Por isso então e por viver em um estado que possui um dos maiores rebanhos bovinos deste país (MS), e através das inúmeras prestações de serviços nas fazendas daqui da região, me deparei sem querer, com muitos episódios tão chocantes como o caso dos cães que citou, onde o horror das castrações dos bovinos, os espancamentos, as queimaduras pelas marcações à fogo e onde, através do envio (por Cem Reais) de cavalos mansinhos e já “velhos demais”, para morrem em matadouros, por exemplo, em um que fica em Araponga PR, onde lá chegando, são submetidos a choques elétricos e perfurações da caixa craniana através do uso de pistolas pneumáticas, que normalmente, não matam o animal, apenas atordoa e permite que na maioria dos casos, eles assistam, a própria morte por esfaqueamento…
    Até no matadouro daqui de minha cidade, eu montei os equipamentos elétricos, como serras, guinchos, etc. E fiz estes serviços elétricos, quando ainda era vegetariano, me surpreendi o quanto eu tinha razão em repulsar aqueles circos de horrores, chamados inocentemente de “abatedouros”, que abatem sim, mas depois de episódios que, se publicados sob campanhas em mídia televisiva, como aquelas dos cigarros, o consumo de carnes no pais, cairia no mínimo, 70% ou mais.
    O estranho é que, mesmo consciente disso, alguns anos atrás, voltei a comer a carne destes coitados, mas felizmente, já estou em rápida debandada deste hábito cultural, e desta vez, definitivamente, pois minha consciência me diz que este costume, é um dos muitos frutos da perversidade humana, que é a criação cuidadosa e premeditada de animais, que logo receberão em seus peitos ou gargantas, facas afiadas, para logo mais à frente, não serem mais chamados de: Mimosa, Estrêla, Negona, mas sim de: Picanha, Bisteca, Linguiça, Etc…
    Espero eu que, em médio curso de tempo, as verdades sobre as toxinas das carnes, obtidas através destes rituais de sangue, venham provocar o culto aos rituais da saúde plena, onde nos valeremos da natureza para nosso sustento, sem derramarmos o sangue de inocentes criaturas que só pensam em graminha verde e um pouquinho de água, além de nunca fabricarem armas nucleares, carrões e nem em comerem caviar ou roupas de grifes famosas…
    Abraços para a Dra. Fernanda e para todos que quiserem curtirem este texto no face. Bom domingo para todos.
    J. Carlos pinha – Selvíria – MS.


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