Prato principal: cachorro
16 de novembro de 2009 | Publicado em: Veterinanda
Eu, como o país inteiro, fiquei perplexa com a descoberta do abatedouro clandestino de cães em São Paulo na semana passada. O casal dono do local foi detido pela polícia por possuir um abatedouro nos fundos de uma borracharia, onde os cães recolhidos da rua eram mantidos em regime de engorda, depois mortos a machadadas e a carne vendida para restaurantes orientais. Em média eram vendidos 10 animais por semana e, como o abatedouro funcionava há cerca de 3 anos, mais de 1400 cachorros foram mortos pelo casal.
Nas culturas orientais, o consumo de carne de cachorro é comum, mas para nós ocidentais é um hábito que causa, no mínimo, estranhamento. No Brasil, por lei, não é permitido matar e comer animais domésticos, como cachorro e gato. E ainda, segundo a lei estadual 11.977, os “animais domésticos, aqueles de convívio do ser humano, dele dependentes, e que não repelem o jugo humano” não podem ser criados para o consumo. A lei também proíbe “a prática de sacrifício de cães e gatos em todos os Municípios do Estado, por métodos cruéis (…) e qualquer outro procedimento que provoque dor, estresse ou sofrimento”. Assim, o casal será acusado por crimes contra o meio ambiente, maus-tratos a animais, crimes contra o consumo e formação de quadrilha.
O consumo dessas carnes traz risco à saúde, uma vez que os animais eram capturados nas ruas e poderiam estar contaminadas por doenças transmissíveis ao homem (zoonoses). As carnes apreendidas no abatedouro e nos restaurantes serão analisadas pela Vigilância Sanitária, que também fará exames de DNA para confirmar a que espécies essas carnes pertencem. Qualquer alimento de origem animal deve sofrer fiscalização sanitária, e, de acordo com o decreto n° 30.691 de 29 de março de 1952 (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), a fiscalização deve ser realizada não só antes ou após o abate, mas também em todo o percurso que a carne percorre até o seu destino. Portanto toda carne sem fiscalização, sendo de cachorro ou de outro animal, pode trazer risco à saúde humana.
Deixando de lado as questões sanitárias, um fato nesse caso foi positivo. Finalmente as autoridades brasileiras agiram contra os maus-tratos a cães. Enquanto em outros países existe uma polícia que trabalha somente investigando crimes contra animais, os chamados “animal cops”, aqui no Brasil infelizmente isto está longe de acontecer. Apesar de serem ações tomadas por se tratar de uma carne que pode afetar a saúde pública, de fato houve uma mobilização por parte das autoridades. Quem sabe isto não se torne uma realidade aqui no Brasil e os crimes contra animais, de qualquer espécie, sejam sempre punidos?
Antes de me despedir, gostaria de deixar uma questão a ser refletida. Por que o consumo da carne de cachorro causa espanto e o de outras espécies não? Outros animais, como suínos, bovinos e aves, são abatidos diariamente e fazem parte da alimentação humana sem causar nenhuma repulsa. Por que o abate desses animais, que nem sempre é feito de maneira “correta”, não causa, na maioria das pessoas, o mesmo sentimento que gerou o abate daqueles cães? Será que um dia esses “animais de produção” serão criados, mantidos e abatidos de uma forma que seja realmente humanitária? Eu, particularmente, torço para que esse dia chegue em breve, não só no Brasil, mas em todos os países do mundo.
Boa semana!

Acredito Fernanda, que o estranhamento seja causado pelo sentimento que a maior parte dos brasileiros sente por seus cães.
Independente de qualquer opinião técnica sobre o assunto, eu desconheço outro animal que tenha uma relação tão intensa e profunda com o homem como o cão.
Gostaria muito que mesmo os animais mantidos para consumo humano, em pleno séc. XXI, fossem mantidos e abatidos por meios mais “humanos”, sem nenhum tipo de crueldade envolvida nesse processo.
Sou solidário a sua idéia de fiscalização, mas entendo que mudanças ocorrem quando existe pressão da opinião pública ou vontade política muito forte.
Meus parabéns pelo artigo tão pertinente, esclarecedor e oportuno.
Beto Leal
Designer e amante dos animais, rs
Obrigada, Beto.
Concordo que o cão seja a espécie mais próxima do homem, e que incontáveis vezes ele seja como um filho, um irmão, um melhor amigo. Justamente por isso eu, assim como inúmeras pessoas, ficamos chocados com essa notícia.
Mas creio que crueldade é sempre crueldade, independentemente da espécie. Acho que todos os animais, domésticos ou silvestres, merecem respeito e dignidade mesmo na hora do abate. Para mim, é o mínimo. Continuo com a esperança que um dia isso acontecerá.
Abraços