Antibiótico é coisa séria

By Fernanda Martins on 29 de novembro de 2010

Os antibióticos são os queridinhos da medicina e não haveria como ser diferente. Antes deles, infecções que hoje são perfeitamente tratáveis dizimaram milhares de pessoas e animais.  Por isso, não é à toa que a história da humanidade mudou após sua descoberta – eles aumentaram a nossa perspectiva de vida.

O primeiro antibiótico descoberto foi a Penicilina, uma substância antimicrobiana produzida por fungos do gênero Penicillium com o objetivo de eliminar bactérias competidoras. Devido a essa propriedade a Penicilina começou a ser usada no combate às doenças. A partir dela, a utilização dos antibióticos se tornou freqüente e diversos princípios antimicrobianos surgiram – e evoluíram – para acompanhar a resistência, cada vez maior, dos microorganismos causadores de doenças.

Conceitos

Antes de falarmos sobre os microorganismos que desafiam os antibióticos, gostaria de esclarecer alguns conceitos: os antimicrobianos são substâncias que combatem microorganismos, englobando os patogênicos e os não patogênicos. Já os antibióticos são medicamentos mais específicos, que agem contra microorganismos patogênicos causadores de infecções. Cada antibiótico tem seu espectro de ação, ou seja, sua abrangência: os que possuem amplo espectro são aqueles que atuam combatendo um grande número de microorganismos diferentes e os de pequeno espectro são aqueles que combatem um número reduzido de microorganismos.

A escolha do antibiótico

O procedimento ideal para escolher corretamente um antibiótico é fazer uma cultura e um antibiograma para tentar identificar o microorganismo e certificar-se que o antibiótico a ser usado é eficaz contra ele. Como muitos proprietários me questionam sobre como funciona esse procedimento, irei explicá-lo: uma amostra é coletada do animal e através dela se faz o cultivo do microorganismo (cultura). Após o crescimento das colônias do microorganismo cultivado é feita sua identificação e um teste com vários tipos de antibióticos para saber quais deles combatem aquele microorganismo em questão (antibiograma). Mas vale lembrar que esta situação ideal nem sempre é possível de ser realizada, pois todo esse trabalho laboratorial leva certo tempo e em muitos casos não podemos esperar, visto que o tratamento deve ser iniciado imediatamente. Nesses casos, é feita uma análise geral do quadro do animal para prever o agente atuante e utilizado um antibiótico de amplo espectro até que os resultados dos exames fiquem prontos.

Na escolha do antibiótico também devemos considerar o animal a ser tratado: seu estado fisiológico e nutricional, sua idade, seu histórico de doenças, presença de doenças concomitantes, prenhez e etc. É preciso cautela quando o uso de antibióticos se faz necessário, pois tais medicamentos possuem efeitos tóxicos para o organismo do animal, podendo agravar o seu quadro clínico, além de algumas substâncias serem contra-indicadas em certos casos, como na gravidez e na lactação. Uma vez determinado qual antibiótico será usado, o esquema de tratamento é montado de modo que a infecção seja eliminada no menor tempo possível e com os mínimos efeitos colaterais para o animal.

É comum os proprietários suspenderem o tratamento depois que os sintomas desaparecem e esse é um erro grave que não deve ser cometido

Ao iniciar um tratamento com antibióticos, alguns pontos importantes devem ser respeitados. O primeiro deles é o horário de administração do medicamento (por exemplo, de 8\8 horas ou de 12\12 horas), que deverá ser seguido rigorosamente – isso porque ‘deslizes’ nos horários favorecem o surgimento de cepas (tipos) de patógenos resistentes. Isso quer dizer que os medicamentos devem sempre ser dados na hora certa, durante todo o tratamento. A duração do tratamento, em geral, é de 5 a 10 dias, porém algumas enfermidades requerem um tempo maior. É comum os proprietários suspenderem o tratamento depois que os sintomas desaparecem e esse é um erro grave que não deve ser cometido, pois essa interrupção é outro fator que contribui para o aparecimento de patógenos resistentes.

O uso banalizado e incorreto dos antibióticos é um dos principais fatores responsáveis pelo surgimento de microorganismos resistentes que sofrem mutações genéticas que os torna capazes de não sofrer a ação dos antibióticos. Os microorganismos que sofreram a alteração genética passam sua característica de resistência à descendência. Assim, os antibióticos atuam como um agente selecionador, eliminando as bactérias não resistentes e deixando vivas – e proliferando – aquelas mais fortes e resistentes que eles não conseguiram combater.

Portanto, ouçam o meu apelo: os antibióticos, assim como outros medicamentos, nunca devem ser usados sem a orientação de um Médico Veterinário, cujas recomendações devem ser seguidas à risca. Se usados incorretamente, podem causar sérias conseqüências para o organismo do animal e para a saúde da população em geral devido ao surgimento de patógenos resistentes. Desse modo, a prescrição e o uso desses medicamentos devem ser encarados com seriedade e a responsabilidade cabe tanto ao profissional, que prescreveu, quanto ao proprietário, que fará o tratamento em casa.

Esperto pra cachorro

By Fernanda Martins on 18 de novembro de 2010

Com freqüência, as pessoas me perguntam a respeito da inteligência dos seus cães e sobre sua capacidade de aprendizagem.  É comum ouvir dos proprietários: “ele entende tudo o que digo”, ou “ele só falta falar”…  E, de fato, são muitas as demonstrações de esperteza que os cães nos dão.

Na Polícia Militar de São Paulo, por exemplo, os cães são treinados para encontrar drogas, explosivos e pessoas desaparecidas e, para isso, atendem a comandos que são dados em três idiomas: inglês, alemão e português.  Inúmeros casos já foram relatados sobre cães que previram acidentes e catástrofes naturais. Mais ainda: quantos episódios diários nós presenciamos onde a capacidade de ‘raciocínio’ dos cães nos surpreende? Eles conhecem cada reação do dono, se escondem quando fazem besteiras antes mesmo de serem descobertos e sabem identificar prontamente pessoas que precisam de ajuda. Não é por acaso que os cães são escolhidos para ajudar em diversos trabalhos de terapia.

Mas, até onde os cães realmente nos entendem?  Ou melhor, até que ponto esses nossos amigos são capazes de aprender e realizar tarefas?

Nos últimos anos, muitos estudos foram feitos para esclarecer esse mistério. Um dos mais famosos é o do psicólogo e pesquisador Stanley Coren, autor do livro “A Inteligência dos Cães”. Neste estudo é mensurada a ‘Inteligência de Obediência e Trabalho’ e não a inteligência ‘instintiva’ dos cães. Ou seja, ele avalia a capacidade que cada raça tem de entender e efetuar comandos para realizar determinada tarefa e estabelece uma classificação dessas raças por grupos, desde as que têm o melhor e mais rápido desempenho até as que possuem maior dificuldade em obedecê-los.

De acordo com o estudo, a raça considerada ‘mais inteligente’ é o Border Collie e a raça que apresenta ‘maior dificuldade em obedecer’ é o Afghan Hound. Expressei a classificação do estudo entre ‘aspas’ porque penso que cada animal, não só o cão, possui um tipo peculiar de inteligência e dizer que um é mais que o outro não me agrada. De modo geral, todos os animais possuem mecanismos de aprendizado e, além disso, esse estudo trata apenas da capacidade de obediência e trabalho e, como sabemos, essas não são as únicas características de inteligência dos cães.

Um detalhe relevante é que as raças possuem aptidões diferentes para trabalhos – e isso deve ser levado em consideração na hora da escolha da raça para determinada função – e, mesmo dentro de uma mesma raça, há diferenças significativas entre os cães. Um cão nunca é igual a outro, mesmo que sejam da mesma ninhada. Cada um tem suas próprias características, além de haver também diferença entre os sexos. Um exemplo prático disso é que, para o trabalho de resgate do Corpo de Bombeiros, onde geralmente são escolhidos Labradores, há uma preferência por fêmeas porque elas são mais dóceis e não apresentam a dominância dos machos.

Segundo Stanley Coren, ainda, os cães são capazes de aprender cerca de 160 palavras, podendo, assim, ser comparados a bebês humanos. Outros estudos demonstram que alguns cachorros têm a capacidade de contar até cinco e que tentam enganar os humanos para conseguir o que desejam. Uma equipe coordenada pelo pesquisador Brian Hare, da Universidade de Harvard, relata que os cães são os animais que melhor compreendem os sinais humanos. Nem mesmo os chimpanzés – os animais mais próximos do ser humano na evolução – tiveram o mesmo desempenho.

Cada animal tem o potencial de aprendizado e adaptação necessário para sua sobrevivência, o que é demonstrado de acordo com os desafios que são enfrentados ao longo da vida. Durante o processo de domesticação os cães foram selecionados por um conjunto de habilidades que os capacitaram a se comunicarem conosco. Eles entendem muito bem nossa linguagem e usam, satisfatoriamente, a sua própria para se expressar.  À sua maneira, os cães conseguiram meios de se fazerem entender e de, melhor que qualquer outra espécie, demonstrar o que os humanos mais precisam e que muitas vezes não possuem: um amor que não depende de nada, mas somente da existência do outro.

Quem sabe esta não é a forma mais inteligente de se expressar?

Prato principal: cachorro

By Fernanda Martins on 16 de novembro de 2009

Eu, como o país inteiro, fiquei perplexa com a descoberta do abatedouro clandestino de cães em São Paulo na semana passada. O casal dono do local foi detido pela polícia por possuir um abatedouro nos fundos de uma borracharia, onde os cães recolhidos da rua eram mantidos em regime de engorda, depois mortos a machadadas e a carne vendida para restaurantes orientais. Em média eram vendidos 10 animais por semana e, como o abatedouro funcionava há cerca de 3 anos, mais de 1400 cachorros foram mortos pelo casal.

Nas culturas orientais, o consumo de carne de cachorro é comum, mas para nós ocidentais é um hábito que causa, no mínimo, estranhamento. No Brasil, por lei, não é permitido matar e comer animais domésticos, como cachorro e gato. E ainda, segundo a lei estadual 11.977, os “animais domésticos, aqueles de convívio do ser humano, dele dependentes, e que não repelem o jugo humano” não podem ser criados para o consumo. A lei também proíbe “a prática de sacrifício de cães e gatos em todos os Municípios do Estado, por métodos cruéis (…) e qualquer outro procedimento que provoque dor, estresse ou sofrimento”. Assim, o casal será acusado por crimes contra o meio ambiente, maus-tratos a animais, crimes contra o consumo e formação de quadrilha.

O consumo dessas carnes traz risco à saúde, uma vez que os animais eram capturados nas ruas e poderiam estar contaminadas por doenças transmissíveis ao homem (zoonoses). As carnes apreendidas no abatedouro e nos restaurantes serão analisadas pela Vigilância Sanitária, que também fará exames de DNA para confirmar a que espécies essas carnes pertencem. Qualquer alimento de origem animal deve sofrer fiscalização sanitária, e, de acordo com o decreto n° 30.691 de 29 de março de 1952 (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), a fiscalização deve ser realizada não só antes ou após o abate, mas também em todo o percurso que a carne percorre até o seu destino. Portanto toda carne sem fiscalização, sendo de cachorro ou de outro animal, pode trazer risco à saúde humana.

Deixando de lado as questões sanitárias, um fato nesse caso foi positivo. Finalmente as autoridades brasileiras agiram contra os maus-tratos a cães. Enquanto em outros países existe uma polícia que trabalha somente investigando crimes contra animais, os chamados “animal cops”, aqui no Brasil infelizmente isto está longe de acontecer. Apesar de serem ações tomadas por se tratar de uma carne que pode afetar a saúde pública, de fato houve uma mobilização por parte das autoridades. Quem sabe isto não se torne uma realidade aqui no Brasil e os crimes contra animais, de qualquer espécie, sejam sempre punidos?

Antes de me despedir, gostaria de deixar uma questão a ser refletida. Por que o consumo da carne de cachorro causa espanto e o de outras espécies não? Outros animais, como suínos, bovinos e aves, são abatidos diariamente e fazem parte da alimentação humana sem causar nenhuma repulsa. Por que o abate desses animais, que nem sempre é feito de maneira “correta”, não causa, na maioria das pessoas, o mesmo sentimento que gerou o abate daqueles cães? Será que um dia esses “animais de produção” serão criados, mantidos e abatidos de uma forma que seja realmente humanitária? Eu, particularmente, torço para que esse dia chegue em breve, não só no Brasil, mas em todos os países do mundo.

Boa semana!

Ivermectina – o que é?

By Fernanda Martins on 4 de novembro de 2009

Na rotina clínica, frequentemente uso a Ivermectina para tratamento de algumas parasitoses. Como seu uso é diversificado e existem vários mitos que cercam esse medicamento, muitos clientes ficam em dúvida a respeito dele. Algumas coisas ditas sobre ela são verdadeiras e outras não. Portanto, meu objetivo é esclarecer o que é Ivermectina, para que deve ser usada e quais as suas contra-indicações.

A Ivermectina é uma substância produzida por um fungo chamado Streptomyces, e é usada em animais e em humanos. Ela atua contra alguns vermes (anti-helmíntica) e contra ectoparasitas (ácaros, carrapatos, larvas de moscas e piolhos). É comercializada com diversos nomes e usada sob a forma injetável e oral. Seu uso é prático, eficaz e a duração dos seus efeitos é relativamente longa, permanecendo por certo tempo no organismo do animal. Geralmente uma dose se mantém efetiva por duas a quatro semanas.

A Ivermectina pode causar intoxicação. Isto pode ocorrer quando a dose é grande o suficiente para penetrar na barreira hemato-encefálica, ou seja, ultrapassar a barreira que protege o sistema nervoso central (encéfalo) de certas substâncias que estão circulando no sangue do animal. Filhotes com menos de 6 semanas de vida e cães idosos são mais sujeitos à intoxicação do que os adultos. Algumas raças são predispostas à intoxicação por Ivermectina, como Collie, Pastor Alemão, Pastor de Shetland, Pastor Australiano, Setters, Old English Sheepdog e seus cruzamentos. Isto se deve à deficiência de uma enzima que atua limitando a concentração da droga no sistema nervoso. Nessas raças a Ivermectina pode causar ataxia, tremores, desorientação, hiperestesia, hiperreflexia, hipersalivação, midríase, depressão, cegueira, coma e morte do animal.

Indicação da Ivermectina

A indicação para o uso de Ivermectinas inclui o combate a:

  1. Ácaros: sarna demodécica, sarna sarcóptica, sarna notoédrica (felina), otocaríase (sarna de ouvido);
  2. Nematódeos: Toxocara sp (larva migrans visceral e ocular em humanos), Ancylostoma sp (larva migrans cutânea);
  3. Infestações de carrapatos;
  4. Larvas de moscas (miíases ou “bicheiras”);
  5. Alguns piolhos;
  6. Profilaxia e tratamento de dirofilariose (verme do coração de cães) – aprovado pela FDA (Food and Drog Administration) – os cães devem ser testados para Dirofilaria antes de começarem o uso da ivermectina.

Lembrando que o seu uso deve sempre ser feito sob prescrição do médico veterinário, que irá ajustar a dosagem e determinar a freqüência de aplicação da droga de acordo com o caso clínico e as condições do animal.

Cuidados antes do primeiro passeio do filhote

By Fernanda Martins on 10 de outubro de 2009

Chegou um filhote na família e você está ansioso para sair, passear a apresentá-lo a todos, não é? Porém logo surge uma pergunta: quando seu novo amigo poderá sair para passear? Vejo muitos clientes com essa dúvida, principalmente aqueles que nunca tiveram cães.

A regra é que o filhote só poderá sair para passear após terem sido aplicadas todas as vacinas. Sim, todas! Antes que isso ocorra, o cãozinho não está totalmente protegido contra as doenças que elas evitam. Se, durante o período entre as doses das vacinas, os filhotes forem expostos a animais doentes ou circularem em locais onde estes animais estiveram, eles poderão se infectar. Por isso, aconselho que nessa primeira fase da vida do seu cão, as saídas devam ser apenas para ir ao veterinário e preferencialmente no colo. Também oriento meus clientes a terem um cuidado importante em casa: evitar que o filhote, que adora roer tudo, morda ou brinque com sapatos que vieram da rua porque podem estar contaminados. Evite também contato do seu filhote com outros cães que não sejam vacinados.

De maneira geral, utilizo na minha rotina clínica o seguinte protocolo de vacinação: A vacina múltipla (que protege contra as principais doenças infecciosas do cão) é dada em três doses, sendo a primeira aplicada entre 45 a 60 dias de vida. As doses seguintes serão feitas 30 e 60 dias após a primeira. A partir dos 4 meses deve ser dada a vacina contra a raiva, em uma única dose. Além dessas, existem outras vacinas que também devem ser administradas, como a vacina contra tosse dos canis e a vacina contra Giardia.

Consulte o médico veterinário para que ele faça um esquema de vacinação ideal para seu filhote e lembre-se de que após completar o calendário, as vacinas terão repetição anual (um ano após a última dose).

Se o seu filhote for mais velho e estiver fora desse protocolo geral de vacinação, a minha recomendação é administrar duas doses da vacina múltipla, com 30 dias de intervalo entre elas, e uma dose da vacina contra raiva. O mesmo procedimento vale para os cães que são adotados adultos. Em ambos os casos, refiro-me aos cães que não possuem histórico de vacinação comprovado.

Um outro detalhe importante que nunca deixo de mencionar é, que além das vacinas, os cãezinhos também precisam ser vermifugados. Assim como as vacinas, os vermífugos (remédios que matam os vermes) devem ter três administrações: aos 30, 45 e 60 dias de idade. Depois das doses iniciais, o vermífugo deve ser repetido, pelo menos, a cada 4 meses durante toda a vida do cão.

Enquanto os passeios não acontecem, uma dica é acostumar seu filhote com a coleira, pois muitos estranham aquela “coisa” no pescoço nas primeiras saídas. Coloque a coleira e passeie dentro de casa mesmo. Faça brincadeiras e dê petiscos para que ele associe a coleira a coisas boas e goste de usá-la.

Completado o calendário de vacinação e vermifugação você e seu cão poderão, com segurança, sair e se divertir bastante!

Bom passeio!