Cruzamento entre pais e filhotes

Tenho uma cadela Rottweiler e ela deu cria. Meus filhos estão querendo ficar com um filhote macho mas eu queria saber se quando ele ficar adulto poderá cruzar com a mãe dele e se não haverá problemas.
(Cinobelino Mendes Leal Neto – Teresina / PI)

Não há nenhum impedimento em ter mãe e filho juntos, porém não é recomendável que eles cruzem. Porque se houver cruzamento entre eles, ocorrerá consanguinidade, isto é, cruzamento entre parentes próximos: mãe e filho, pai e filha e entre irmãos.

Este tipo de cruzamento é bastante utilizado pelos criadores com o intuito de aperfeiçoamento das raças, mas ele também traz o grande problema do empobrecimento genético. Pois ao mesmo tempo que fixa qualidades desejáveis, também aumenta as chances de aparecimento de doenças, uma vez que ressalta características recessivas indesejáveis que estavam inaparentes. Ou seja, os genes “ruins” que determinavam a doença estavam encobertos por genes “bons”, que não deixavam que a doença aparecesse.

O mecanismo pelo qual essas doenças surgem, através da consangüinidade, é o seguinte: dois cães irmãos possuem um gene x (x pequeno) que determina uma certa doença. Porém esse gene x está encoberto por um gene X (x grande), que não permite o aparecimento da doença. Se cada um dos irmãos cruzar com um outro cão que não possua esse gene x, a doença não ocorrerá, porque certamente esse gene estará encoberto. Mas, se os irmãos cruzarem entre si, haverá 25% de chance de que os dois genes x se encontrem e de que essa doença ocorra. Logo, o cruzamento entre animais que não são parentes acrescenta genes novos à linhagem e diminui as chances de surgirem doenças hereditárias.

Uma pesquisa realizada pelo Imperial College de Londres mostrou que os cruzamentos entre cães com parentesco próximos são tão comuns em Pugs que os cerca de 10 mil animais registrados na Grã-Bretanha vêm de uma linhagem de apenas 50 indivíduos distintos. O professor de genética do University College of London, Steve Jones, alertou: “Isto é absolutamente insano do ponto de vista da saúde dos animais. Algumas raças estão pagando um preço terrível em termos de doenças genéticas”.

Muitas anormalidades podem ocorrer devido a esse tipo de cruzamento, desde alterações genéticas, como displasias e criptorquidismo (testículo localizado fora da bolsa escrotal), até doenças neurológicas, como epilepsia. É uma pena que muitos criadores se preocupem apenas com o aperfeiçoamento da raça em detrimento à saúde dos descendentes, muitas vezes gerando sofrimento nos animais, não só devido a doenças, mas também por exagero em algumas características. Um exemplo são alguns cães da raça Pug que simplesmente não respiram direito porque possuem focinhos extremamente achatados, prejudicando suas vias respiratórias; ou cadelas de raças mini, como Yorkshire Terrier e Poodle Toy, que por serem muito pequenas, não conseguem ter um parto natural e precisam de intervenção cirúrgica para conseguir dar a luz a seus filhotes.

Portanto, evite cruzar animais que possuem parentesco próximo. Se macho e fêmea parentes morarem no mesmo ambiente, retire o macho do local no período de cio da fêmea, porque os cães sempre tentarão encontrar um jeito de acasalar. Uma medida bem mais eficaz é esterilizá-los, pois dessa forma não haverá sustos. E se a intenção for acasalar os cães, procure um cão que não seja parente, assim haverá maiores chances de nascerem filhotes saudáveis. A variabilidade genética agradece!

Fernanda Martins

Fernanda Martins é médica veterinária formada pela UFRRJ (CRMV-RJ 7783) e especializada em pequenos animais.

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